sexta-feira, 12 de janeiro de 2018



Não ter e ter que ter pra dar

Isa Oliveira

Há momentos na vida em que nos sentimos tão abundantes que nosso maior desejo é dar. Já saímos da cama dispostos a dar um caloroso bom dia a quem encontrarmos, e damos sorrisos, abraços, palavras amigas, esmolas, dividimos nosso almoço, nosso lanche, damos o melhor no trabalho, aos amigos, à pessoa amada, extrapolamos em criatividade. É uma sensação de transbordamento, sentimos que, se não dermos, vamos vazar ou estourar.
Mas, há dias, em que nos sentimos chochos, esgotados, com pouca energia, pouco ânimo, pouca vontade, vazios. Nesses dias, levantar da cama é um tormento, responder a algum bom dia que recebamos é uma dificuldade, quanto mais dá-lo. Não temos sorrisos, não temos disposição, não temos gentileza, preferiríamos que nosso cachorro fosse apenas um tapete e não uma criatura que faz xixi onde não deve, nos momentos que não deve e parece ser movido a pilhas alcalinas, pois tem uma energia inesgotável e está sempre disposto a fazer festa e pular em nós, mesmo quando estamos com cara de defunto que levantou da cova. Desejamos não ver ninguém para não ter de abraçar, conversar e responder ao inevitável: “Como vai? Tudo bem?”. O trabalho nos enfada, os amigos nos irritam e a pessoa amada se torna algo inadequado.
Em dias normais e, sobretudo nos dias de alegria, podemos conversar sobre tudo, qualquer assunto é prazeroso, rimos até do caos da nossa política com suas falcatruas e jogadas que extrapolam a ficção. Nos sentimos lindos, jogamos beijinhos pro espelho, gostamos do nosso cabelo e nos sentimos bem dentro de qualquer roupa. Saudamos o sol ou a chuva ou o frio e até a água que tomamos parece ter sabor. Já nos dias cinza, tudo nos desagrada e, ao ouvir os inevitáveis comentários na TV, nas ruas, no trabalho, em casa sobre mais um esquema de corrupção, mais uma prisão, libertação de um preso ou delação premiada, sentimos vontade de jogar uma bomba atômica em Brasília ou ao menos encontrar alguns desses bizarros personagens frente a frente e poder lhe dar um soco bem no meio da cara. Nem passamos perto do espelho para não correr o risco de querer quebrá-lo diante da tenebrosa imagem de nós mesmos que ele nos mostra; qualquer roupa que coloquemos nos fará sentir horrorosos, nosso cabelo não ajeitará nem com chapinha, Gomex ou lâmina zero, até a água vai ter sabor amargo e o sol, a chuva ou o frio sempre parecerão inadequados e nos farão odiar aquele dia com o seu clima próprio. Tudo será demais, calor demais, frio demais, chuva demais.
Não entendemos porque nos sentimos assim. Especialistas podem tentar achar motivos que desencadeiam esse torpe estado de espírito, seja num acontecimento recente, nos traumas de infância ou na vida passada. A verdade é que não há lógica e nem explicação. Somos mutantes e sofremos alterações de humor que nos azedam e azedam tudo ao redor e, dependendo do que acontece, pode nos levar a crer numa conspiração do universo para nosso mau dia (que rapidamente confundimos com uma má vida, esquecendo de toda a gama de dias bons que já vivemos e certamente viveremos). Geralmente é nesses dias que o leite derrama, o pão cai com a manteiga para baixo, o salto do sapato quebra, a meia desfia, perdemos a condução, o pneu do carro fura... Parece que nosso estado de espírito consegue atrair coisas ruins. Na verdade, coisas ruins acontecem o tempo todo, a diferença é que, se estamos bem, buscamos soluções, superamos ou rimos delas. Mas, nos dias ruins, o zumbido de um pernilongo pode provocar uma guerra.
Podemos estar – e é ideal que estejamos – atentos a esses misteriosos e sombrios dias de nuvens negras e, se não for possível evitarmos o convívio, tentarmos evitar pelo menos os confrontos e nos comportarmos da forma mais amena e imparcial possível. Temos de desenvolver um mecanismo de lembretes que nos permitam ter consciência que esse mal-estar, esse esvaziamento de energia só está acontecendo com a gente e que vai passar. Principalmente porque o mau humor é contagioso e, se estamos chatos, desanimados, arredios e agressivos, acabamos afetando outras pessoas e o que pode decorrer daí varia ao infinito.

Esses são os dias em que a gente deseja colo de mãe, mesmo sem ter mais mãe ou que Deus, o anjo da guarda ou seja o que for em que acreditamos nos salve de nós mesmos. São dias, sobretudo, de vazio, de muito vazio e, nesses dias, o mais triste, como diz a música “Sabe lá”, do Djavan, é não ter e ter que ter pra dar, porque o nosso cachorro não é um tapete, nossos amigos não são uma rede de esgoto, o trabalho é nossa responsabilidade e a pessoa amada não é um estranho e nem um inimigo e, muitas vezes, o seu estado de espírito depende do nosso. Então, mesmo em meio ao caos, mesmo que os problemas e as dificuldades sejam reais, mesmo que a vontade seja de fugir, sair correndo até onde o fôlego permitir, quebrar o espelho, socar o político ou gritar com alguém, o negócio é respirar fundo e tentar encontrar algum resquício do bom e do belo dentro da gente ou – o mais difícil – ter a humildade de pedir colo, de pedir arrego, de pedir ajuda, porque não somos super-heróis, somos apenas pessoas que um dia estão bem e outros nem tanto e há dias de dar e dias de pedir.


Como escolher um amigo?

Isa Oliveira

Sem querer tirar o crédito do destino, podemos dizer que escolhemos a pessoa com quem vamos nos casar – está certo que nem sempre escolhemos bem, mas, escolhemos. Já com os amigos, podemos dizer a mesma coisa? A escolha de um namorado ou namorada é precedida de alguns pré-requisitos, como altura, cor do cabelo, tipo físico, escolaridade, profissão, tipo de personalidade etc. É claro que às vezes namoramos alguém que não tem nada a ver com aquilo que gostamos e, em alguns casos, pode até dar certo, mas, geralmente, escolhemos baseados em nossos valores e idealizações. Já com um amigo, não é assim. A gente não diz que quer um amigo loiro, de 1,80m, formado em engenharia ou uma amiga mignon, de cabelos compridos, que adore crianças e queira muito ter filhos. Os amigos simplesmente acontecem, eles entram na nossa vida de maneira imperceptível, vão se instalando, vão ficando e as afinidades vão se delineando, os laços se estreitando e, quando se vê, a gente tem um pacto de vida, uma união de alma com aquela pessoa, seja ela como for.
Ao longo da vida, conhecemos muita gente, fazemos muitas amizades, mas, a maioria é fugaz, passageira, amigo mesmo, aquele que diz o que a gente precisa ouvir, com quem nós sempre podemos contar, que nos empresta dinheiro e nos pede dinheiro emprestado, que divide conosco os seus segredos e com quem dividimos os nossos e que muitas vezes parecem nos conhecer melhor que nós mesmos, esses são poucos. Dá pra contar nos dedos das mãos, às vezes de uma só mão. Eu ainda uso as duas nessa contagem, embora sobrem dedos. Alguns desses amigos já estão na minha vida há mais de 40 anos, outros há menos tempo, mas ocupam o mesmo lugar de destaque e são pessoas que me acompanharão a vida toda e além. “Ao infinito e além!”, como dizia o emblemático Buzz Lightyear, em Toy Story. São pessoas que conhecem partes de mim que não estão “abertas ao público”, partes boas e partes ruins, partes que aprecio e partes que não louvo.
Hoje moro numa cidade que conheci há apenas dois anos e não tenho amigos aqui. Tinha no trabalho algumas relações que poderiam evoluir para a amizade, mas, como parei de trabalhar, essas relações se romperam sem ultrapassar a barreira da polidez e da formalidade. Meus grandes amigos estão em Monte Alto e em São Paulo. Um entre eles é cidadão dos ares. Por ser comissário de bordo, está sempre sobre asas e não tem parada certa, embora mantenha um local como endereço postal. Outra, já voa com asas próprias, pelos jardins do céu. Mas todos estão tão perto, tão dentro e tão em volta de mim, uma vez que estou dentro deles também... Sinto falta de ter, aqui em Mogi Guaçu, alguém nessa categoria de amigo, alguém pra tomar um chá, um chop ou uma chuva junto. Alguém pra falar asneiras ou pra discutir o assunto mais importante do universo, alguém que me olhe e me veja e que eu também consiga olhar e ver. Entendam, isso não é uma lamentação, apenas uma constatação, afinal, embora Richard Bach afirme magnificamente num livro sobre amizade que “longe é um lugar que não existe”, como não ando sobre asas de aço ou sob asas de anjo, Monte Alto e São Paulo são locais longe o suficiente, e isso me faz sentir uma infinita saudade, porque um e-mail, um whatsapp ou mesmo um telefonema nunca serão capazes de substituir um abraço, um aconchego, , um cafezinho coado na hora, um olho no olho.
Esses dias recebi uma mensagem de um amigo que muito me emocionou por relembrar um dia em que ouvíamos uma música e ele me perguntou quem cantava e eu respondi, displicente. Eu jamais me lembraria desse fato, de anos e anos atrás, mas, ao ouvir a música, ele se lembrou, certamente não apenas pela beleza dela, mas pelo significado que teve o meu jeito de falar, a entonação de minha voz, ou algo assim que o marcou, que eternizou aquele momento para ele. Contando isso, ele me escreveu: “Me lembro de te perguntar quem cantava essa música e sem que olhasse pra mim, me respondeu - Placido Domingo... e se chama "Perhaps Love". Havia tanta coisa que eu não me atentava, tantas nuances que escapavam do meu olhar cru... hoje sei que você não estava ouvindo a música, você a estava sentindo e isso exigia sensibilidade, ou melhor dizer intimidade com a experiência. Viver algo significa abandonar o mundo das teorias e embarcar numa viagem sem mapa rumo ao horizonte, o qual insiste teimosamente em se distanciar cada vez que chegamos perto. De tudo o que a vida nos oferece, ouso dizer que o tempo é o que há de mais valioso.”.
Isso pode parecer apenas um apanhado de frases bonitas escritas por alguém que domina o idioma, mas, para mim, significam muito, pois na época em que ocorreu isso, esse amigo era apenas um menino, alguém para quem eu era uma espécie de ídolo e ele bebia avidamente das minhas palavras. Convivemos o suficiente para ele conhecer de mim bem mais que a “sensibilidade para ter intimidade com a experiência”, como ele diz, mas conhecer também muitas das minhas limitações e fraquezas, como eu conheci as dele, à medida que crescia, até alçar voo, mas, o que importa são essas pequenas pérolas que se eternizaram, a importância que tive e terei sempre na vida dele e ele na minha. O interessante é que essa mesma música me remete a Monte Alto, à minha grande e querida amiga Natalina Collatrelli, pois foi na casa dela, em Uberlândia, há dezenas de anos, que ouvi essa canção pela primeira vez e também me lembro exatamente como foi, numa manhã ensolarada e linda, quando ela nos preparava o café da manhã, com sua linda bebezinha brincando no tapete da sala, e me dizia o quanto aquela música a fazia se lembrar de mim.

A quem lê os meus artigos, pode até parecer que falo excessivamente de mim, que não tenho a imparcialidade de um jornalista e eu respondo que não mais mesmo, já tive essa imparcialidade quando fui repórter, quando fui redatora, hoje sou apenas uma cronista e não há uma só vez que eu fale de mim que não esteja falando de vocês, de cada um de vocês que me leem, porque a nossa experiência humana é repleta de similitudes e são esses pequenos acontecimentos, aparentemente tão sem importância, que constroem as conexões necessárias para atravessarmos a vida, o que não conseguiríamos fazer sem essa ponte chamada amigo.
Espaços imaginários

Henrique Campos

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.
Alberto Caeiro, in “Fragmentos de Fernando Pessoa”.

Nós seres humanos – Homo sapiens neanderthalensis – possuímos inúmeras capacidades cognitivas que nos diferenciam dos animais irracionais, muito embora, algumas espécies de “homens”, agem de maneira que os destoam da raça.
No mundo que vivemos hoje, transformado continuamente pelas indelicadezas cometidas pelo próprio homem, torna-se difícil a convivência pacífica. Rumores e, por vezes, constatações de guerras; atentados, ferem e dilaceram as espécies todas viventes aqui.
Como modificar estas ações? Como compreender que nada aqui nos pertence e que é passageira essa nossa condição?
Viver harmoniosamente com a natureza, não a vilipendiando tornaria mais agradável nossa estada.
Quando era menino, no tempo do colégio, na hora do intervalo das aulas, íamos em pares até o pátio e, todos juntos, escolhíamos o que fazer com aqueles trinta minutos que tínhamos de pausa nas tarefas da sala de aula. Meus colegas e eu, muitas vezes após degustarmos saborosa merenda, dirigíamos para a quadra – que naquele tempo ainda não possuía concreto – lá fazíamos brincar com toda sorte de brincadeiras típicas e apropriadas para aquele momento: pular corda, queimada com bola de meia, pega-pega. Eu me detinha com um passatempo predileto – desenhar no chão de terra batida. Neste mundo sob meus pés, criava personagens que chamavam atenção, deixando a quadra aglomerada de curiosos para ver o que nasceria daquelas ágeis mãos a conduzir uma vareta fina transformada em pincel dos sonhos.
Construía castelos. Reis e rainhas em soberania nos reinos encantados por mim rabiscados no chão transformado em caderno. Neste momento raro eu era senhor de minhas ações. Tinha os pensamentos marejados de sentimentos, colocava no chão todo o repertório imaginário que retirava de minhas incursões pelos livros – um mundo mágico onde viajar se fazia necessário.
Inserido neste mundo, busco desenhar hoje, mesmo adulto, nos espaços imaginários deste meu chão do presente. Nele reencontro a imaginação que procuro absorver para minha vida. Ética, generosidade e gentileza são requisitos básicos para a convivência tão pacifica e sonhada pelos justos e, esta justeza deve ser seguida, anelada a todo momento.
O que normalmente se dissemina por aí é o politicamente incorreto. Que tenhamos o discernimento de separar o joio do trigo. Furar fila, sonegar impostos e todas as adversas ações para o positivo – não pode ser apoderado como líquido e certo. Ser reto de caráter, transformará o mundo e os homens. O contrário não deve ser parâmetro, mesmo que custe palavras, mesmo que custe sonhos.   
A ética nossa de cada dia

Isa Oliveira

Ontem, depois de passar seis horas sentada em uma cadeira pouco confortável, numa sala com ar condicionado abusadoramente frio num treinamento promovido por minha empresa, sem almoço devido ao horário de início e término do curso, com um breve intervalo de apenas 15 minutos para um coffe break, sentindo os efeitos do choque térmico ao retornar para o calor da rua, caminhei a pé – e de salto – mais dois quilômetros até o SENAC de Campinas para outro curso que faço todas as quartas-feiras, por escolha própria. No intervalo da aula, eu não sabia o que era maior, se a fome ou o cansaço, mas meu professor veio em socorro de minha indecisão ao comunicar que iria trancar a sala. Desci a escada e fui até a lanchonete da rua de trás para comer alguma coisa. Só há duas pequenas lanchonetes ao lado da escola e a fome parece ter atingido a totalidade dos alunos, pois a fila estava imensa. Apesar do cansaço, eu estava de ótimo humor e me mantive trocando ideias com uma colega na fila até que um pequeno ocorrido me chamou a atenção. Duas mocinhas um pouco atrás de mim começaram a reclamar do tamanho da fila, deixando-a logo em seguida. Mas, para a minha surpresa – porque, por incrível que pareça a uma pessoa da minha idade, ainda me surpreendo com esse tipo de coisa – uma delas se dirigiu a uma colega, bem na frente na fila e pediu-lhe, como se fosse a coisa mais natural do mundo, para comprar-lhe um lanche, um suco e uma salada. Em seguida as duas sentaram-se numa mesa.
Cansada, com fome, com sono, com os pés doendo e a garganta arranhando por efeito do ar condicionado, me senti a mais perfeita idiota. Não reagi, apenas olhei demoradamente para as meninas confortavelmente sentadas à mesa, conversando animadas enquanto a colega à frente na fila fazia o seu pedido e o delas, já tendo assegurado um lugar para sentar junto das desonestas. Eu e minha colega de sala fizemos o nosso pedido e comemos em pé, na calçada. Tá, se formos nos preocupar com essas coisinhas, se formos nos deixar levar por essas ninharias, não vivemos e... Não! Basta! Não tem de ser assim, temos de nos preocupar sim, de nos importar sim, porque essa mesma mocinha pode ser aquela que se juntará a outros da mesma idade para ir às ruas fazer protestos e manifestações contra a corrupção dos políticos e governantes, muitas vezes promovendo quebra-quebra e depredação do patrimônio público e privado. Mas, que diferença há entre estar envolvido com propinas de alguns milhões da Petrobrás para favorecer determinadas companhias em processos de licitação e furar uma fila para comprar um lanche enquanto guarda lugar numa mesa? Nenhuma. Não há diferença entre roubar um real e roubar um milhão, entre não devolver o troco recebido a mais no supermercado e aceitar vantagens pessoais e para familiares dentro da máquina administrativa.
Devemos protestar e exigir mudanças, mas, essa mudança deve começar em nós. No episódio aparentemente sem importância e que apenas me causou uma leve irritação, por estar excessivamente cansada, eu me calei e assisti passivamente a um exemplo de corrupção ativa bem na minha frente. Assim como, na maioria das vezes, estamos cansados demais, desanimados demais internamente para tomarmos alguma atitude e por isso vamos assistindo, passivos e indignados, à roubalheira e pouca vergonha que assola o nosso país. O problema é que agimos como se a questão da corrupção estivesse circunscrita apenas a Brasília, com alguns focos isolados de contaminação nas capitais dos estados, onde atuam governadores e deputados e, ocasionalmente, alguns foquinhos em algumas prefeituras e câmaras de vereadores em pontos isolados do país. Assim como associamos pratinhos de vasos de plantas e pneus com água ao Aedes Aegypti, associamos a corrupção aos políticos. Olhamos as consequências e não as causas, observamos apenas os frutos, sem enxergar a raiz.
Concordo que a proliferação do mosquito da dengue depende de ações do governo para a sua erradicação, mas, começa na negligência de cada um de nós em cuidar de nossas casas, nossos quintais. Assim também se dá com a corrupção. Essa mocinha que descaradamente passou à frente de mais de uma dezena de pessoas na fila da lanchonete, não deve achar que agiu mal, apenas foi mais esperta, soube como valer-se de suas amizades para levar uma pequena vantagem. Esse tipo de praga evolui e leva as pessoas a perderem a moral, a ética e a decência e não verem nenhum mal em receber alguns milhões para favorecer um amigo em uma licitação ou na obtenção de qualquer tipo de favor do governo e de suas autarquias. O princípio é o mesmo, o crime é o mesmo, a diferença é que quando se mexe grandes quantidades de dinheiro, a coisa incomoda mais.
Onde isso começa? Infelizmente, nas nossas casas, na nossa educação, nos nossos descuidos. O Aedes Egypti não é uma entidade espiritual malévola vinda do além para trazer-nos uma praga apocalíptica, é apenas um mosquitinho hospedeiro que não se reproduziria e não se espalharia tão rápida e avassaladoramente se cada um de nós tomasse pequenos cuidados básicos. Assim também a corrupção não proliferaria e nem se transformaria nesse monstro hediondo que parece que não há poder capaz de destruir se não a amamentássemos e cevássemos dentro de nossos lares, na educação de nossos filhos desde a mais tenra idade. É comum vermos pais e mães ensinando aos seus filhos os direitos que eles têm sobre os demais, ensinando-os a sempre levarem vantagens sobre os coleguinhas e a darem jeitinhos para resolver as coisas mais comezinhas. Claro, há exceções, graças a Deus. Há pais e mães que ensinam seus filhos a serem justos, que os repreendem quando eles erram, que lhes ensinam ética, valores morais e regras de convivência e que não os criam como se fossem coitadinhos, sempre certos, vítimas do mundo, injustiçados e perseguidos. Esse tipo de educação garante que, paralelamente aos corruptos e corruptores, ainda vivam pessoas de bem, homens honestos, de brio, pessoas éticas que veem o mal e lutam pelo seu extermínio, o que nos faz acreditar que este país e este mundo ainda tem conserto, que ainda há esperança, que o bem triunfará no final, sobretudo se nos unirmos para promovê-lo, porque, mais que lutar contra o mal, é imperioso promover o bem.

No entanto a maioria dos pais (sobretudo as mães) ainda agem tratando seus filhos como pequenos príncipes que gravitam acima dos deveres básicos, que devem ser servidos, respeitados, adulados e mimados, como se fossem seres de uma ordem superior. Com isso, se não criam corruptos e outras aberrações, porque nem todos têm as mesmas oportunidades, criam seres humanos fracos e acomodados que, ainda que vejam o mal se alastrando, ficam esperando que, como as suas mães os defendiam das professoras cruéis, dos coleguinhas maus, das maquiavélicas namoradas e esposas que os fizeram sofrer, dos patrões que os exploraram, vai aparecer uma força do bem, um elemento superior que os salvará desse poder malévolo que perturba a humanidade, e enquanto isso, vão reproduzindo esse mesmo modelo de educação doente, encapsulando seus filhos dentro de uma falsa proteção, acreditando-os injustiçados ou vítimas de bullying quando um colega olha torto para eles, criando mocinhas bonitas e fúteis que vão furar a fila da lanchonete e rapagões folgados que não conseguem sair da cama antes do meio dia para procurar um emprego, mas que se prestam a marchar heroicamente durante um manifesto, cobrir a cara com uma camiseta e sair dando voadora em vidros de prédios públicos e, se eles porventura são pegos pela polícia, esses mesmos pais vêm em sua defesa, dizendo que os seus pequenos heróis estão lutando pela pátria e os levam pra casa como vencedores. A ética no entanto...

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

PREGUIÇA
Preguiça é um estado, ou uma falta de estado de espírito,
uma falta de vontade de ter vontade, um ânimo desanimado,
um estado de letargia, uma vontade sem vontade,
um desejo de ficar deitado,
ou mesmo sentado, escorado ou encostado.
Preguiça é uma força sem força, um corpo sem movimentos,
solto e indo ao sabor do vento,
um jeito de encarar de olhos fechados, de avançar,
mas ficar parado, de brigar, mas apanhar igual a um condenado.
É uma braveza sem bravura, uma barata tonta
que se amedronta e se desmonta.
Preguiça é uma vontade de ir pra cama,
ou mesmo deitar na lama e se encolher
e se esticar e ficar mais morto do que vivo.
Preguiça é o que eu sinto depois do almoço,
uma moleza total, dos pés à cabeça,
uma dificuldade para manter os olhos abertos
e o coração pulsando e uma inveja
de quem está de pé e andando.
Preguiça, enfim, é coisa boa.
Preguiça sou eu em pessoa.
(04-01-2018) Cícero Alvernaz (autor)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

FELIZ NATAL A TODOS OS LEITORES



OBRIGADO MEUS QUERIDOS AMIGOS PELA HONROSA E GENTIL VISITA AO BLOG DURANTE TODO ESTE ANO DE 2017.
ESPERO PARA O NOVO ANO,PODER AINDA MAIS COMPARTILHAR COM BOA LITERATURA E CURIOSIDADES DE TODO O MUNDO SEMPRE DE FORMA A SERVI-LOS NO LAZER, INFORMAÇÃO E CULTURA.
DEUS LHES PAGUE POR TUDO AMADOS AMIGOS LEITORES!