segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

CHUVA ATEMPORAL


CHUVA ATEMPORAL

Gotejam lá fora gotas numa lata
Os trovões ribombam distantes...
No condutor o rumor de uma cascata
Menino, eu dormia feliz num instante.

Imaginando meu telhado protetor
Meu colchão simples, mas confortante,
Hoje - menino já velho - cheio de dor...

Os segundos a tiquetaquear,
Penso lá fora, no chão sem cobertor,
Doentes, velhos e crianças a chorar...

Já são altas horas, retiro a lata da goteira
Para não ouvir o som que era de saudade,
Parecendo dar à miséria uma eira ou beira;
Somos todos cegos esta é a pura verdade...

Ribombar de trovões distantes ora tristes são,
O telhado já não me protege das gotas frias
Que caem lá fora em meu exposto coração...
Tempus fugit, e todos ficamos nesta apatia.

Não podemos sair a esmo pela noite afora,
A noite é o logro de um poema feito a sós
Não, a selva se alimenta de sangue agora,
Há angustia no Tempo que cala nossa voz...

E breves quanto eternos serão os segundos
Soma dos infindáveis minutos e horas feridas.
Para dormir só o acalanto de outros mundos

Nos agregará o fluir da paz para nossas vidas! 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

As Cortinas do Tempo: BUSCAR O SABER

As Cortinas do Tempo: BUSCAR O SABER: BUSCAR O SABER... O tempo corre tão depressa com os corpos que precisamos parar e  esperar nossa alma chegar. [De um conto indíge...

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Conheça a Cia. das Artes R.F. Fílon


A Acadêmica Fátima Fílon em parceria com outros fomentadores culturais criou o canal de Youtube Cia. das Artes R. F. Fílon, cujo objetivo é divulgar a Literatura regional através de teatro com fantoches. 

Confira a descrição do canal:
Cia das Artes R.F. Fílon apresenta uma saudação para 2018, com os bonecos de fantoche: Glorinha, Maria, Tuca e Divino (Vino); e outros. Com muita animação e cantoria em cordel, os quatro amigos combinam novas reuniões para um grande projeto em Arte Educação para melhorar o mundo nesse lindo planeta Terra e encantar a todos. Este é o primeiro de uma série que virá sempre abordando novos temas. Divirtam-se!  

O primeiro vídeo:


Segundo Fátima Fílon, haverá espaço para cordéis, poesias e historinhas para as crianças. 

Apoio Cultural:
-Vera Scholze
-Soberana Trajes Finos 
-Claudinei Honorato 
-Cristiano Domingos Pereira
-Rosângela Fonseca Ferreira
-Roberto Corrêa Fonseca- Pinturas em geral

Página do Facebook:

Inscreva-se:

fica o registro e a dica. 

sábado, 13 de janeiro de 2018


FÁBRICA DE NUVENS

Isa Oliveira

            Eu não tinha nenhuma ideia sobre Mogi Guaçu e nem mesmo a diferenciava de Mogi Mirim ou de Mogi das Cruzes. Talvez até mesmo confundisse a cidade com o rio. No entanto, quis o destino que meu coração de poeta fosse seduzido por um habitante desse lugar, que não é um peixe, logo, não se trata de um rio, mas de uma cidade, que passou a figurar na minha estreita geografia e adquirir contornos de tons prateados.
            Combinei com meu guaçuano amado uma viagem para a minha terra natal, Monte Alto. Como viria de Atibaia, pela Dom Pedro, para facilitar as coisas, nos encontraríamos em Campinas, na manhã de sexta-feira. No entanto, a doce agonia da saudade me levou a antecipar minha ida em um dia e a aventurar-me a encontrar a agora já interessante cidade com as parcas instruções obtidas no Google, sem GPS ou estrelas-guia para me orientar.
            Logo que fui me aproximando do sítio procurado, como é comum aos apaixonados, as mãos foram gelando e as pernas bambeando, difícil controlar os pés entre embreagem, freio e acelerador. Para distrair-me desse estado de perturbação, resolvi passear meus olhos pela paisagem e, qual não foi a minha surpresa, ao descobrir que é na região de Guaçu que são produzidas as nuvens! De uma imensa chaminé, provavelmente a maior que já vi, saía uma nuvem branquinha e muito fofa, recém produzida. A imagem extasiou-me. Cinco décadas acreditando que nuvens são formadas pela condensação do vapor que sobe da terra para, num repente, descobrir que existe uma fábrica delas! Tá, é certo que os ecologistas e muitos moradores do lugar podem não concordar com meu ponto de vista romântico sobre o denso material expelido pela grande chaminé, mas, serei irredutível nesse ponto: é uma fábrica de nuvens e fim!
            Entrando na cidade, que já me pareceu simpática desde a um pouquinho esburacada via de acesso da entrada que escolhi (nem imaginei que houvesse outras, entrei logo na primeira, como se fora a única que me levaria aos braços do amado). Rapidamente dei conta de que as orientações do Google Maps impressas numa folha A4 não me seriam de grande valia, pois placas com os nomes das ruas que deveria seguir, não as vi logo de cara. Parei então numa loja de material de construção, tentei controlar a tremedeira das pernas, entrei e perguntei pela localização da Rua Bauru. “Ih, moça, tá do ouuuuuuuuuuuuuuuutro lado”.
Pelo encompridar do “outro”, supus que a rua estivesse mais perto de Atibaia do que do ponto de Guaçu em que me encontrava. O rapaz do depósito foi extremamente gentil, saiu de detrás do balcão, foi comigo até o carro e me deu instruções precisas, cuja metade esqueci alguns quarteirões depois, mas, guardei uma referência: o Bar do Congada.
Consegui chegar até próximo da rodoviária e lá parei numa esquina para me informar. Um pedreiro desceu do andaime e veio em meu socorro, rosto suado e mãos sujas de massa. Pensou, pensou, traçou rotas a meia voz, falando consigo mesmo e dizendo: “Não, por aí é muito difícil, ela vai se perder, péra aí... Não, por ali também não...”. Atrás de mim havia um caminhãozinho parado e o motorista falava com outro homem. Sugeri ao pedreiro perguntar ao motorista e ele me explicou que não ia adiantar, porque ele também estava perdido.
Eu já estava apaixonada por Guaçu pelo simples fato de ela abrigar aquele que amo, mas, a atitude daquele homem simples nocauteou-me como um golpe de direita do punho do Anderson Silva em suas melhores lutas. Ele me pediu para esperar, entrou na obra e reapareceu com uma chave e um capacete na mão. Subiu numa moto e me pediu para segui-lo, tendo a delicadeza de ir devagar e parar para me esperar sempre que outro veículo de interpunha entre nós. Levou-me até o Bar do Congada, a poucos quarteirões do meu destino final. Desci do carro num impulso, agarrei a mão do pedreiro e a beijei demoradamente, sentindo em meus lábios o gosto acre de cimento e cal.
Com esse gesto tão humano, tão solidário, de uma pessoa que deixou seu trabalho para guiar uma desconhecida, Guaçu me conquistou para sempre. Logo mais eu seria recebida pela reação feliz do meu amado à surpresa, pelo carinho de seus pais, agora meus também; mais tarde por seus irmãos e tios e, com requintes de atenção e doçura, por seus colegas de trabalho no SENAC, mas, o impacto mesmo foi causado pelo atencioso construtor. Só não entendi como ele trabalha levantando paredes em vez de manobrando a chaminé e os fornos da magnífica fábrica de nuvens, posto que é um anjo.

Não me julgo cidadã do mundo, e sou até muito provinciana, mas, de agora em diante tenho três naturalidades: Monte Alto por nascimento, Atibaia por escolha e Mogi Guaçu por amor!
PROCURA-SE UM GRANDE AMOR

Isa Oliveira

Procura-se um amor que busque repouso e traga aconchego. Que tenha braços fortes para sustentar uma mulher forte, mas que tenha mãos delicadas para acariciar uma mulher suave. Que traga nas faces sulcos feitos pelo tempo e que tenha a gentileza de tirar para dançar uma sorridente menina vestida com a roupagem de uma mulher de meia idade.
Procura-se um amor que, ainda que não faça tudo o que ame, ame tudo o que faz e seja satisfeito consigo mesmo, com sua profissão, seus afazeres, sua vida e, em não estando satisfeito, que esteja verdadeiramente disposto a mudar e aventurar-se num novo recomeço.
Procura-se um amor que tenha disponibilidade para estar presente nos momentos importantes, que tenha o desejo sincero de compartilhar, mas que preze a sua individualidade e respeite a minha; que saiba caminhar junto, mas com espaços entre os dois, a fim de não sufocarmo-nos.
É imprescindível que acredite em Deus acima de qualquer outra coisa. Que não tenha uma fé vaga e utópica, uma religiosidade de conveniência e nem o farisaísmo a arrogância doutrinária. É bastante adequado que partilhe a mesma crença que eu, pois, conquanto respeite a diversidade religiosa, já vivi o bastante para compreender que uniões em jugo desigual são muito desgastantes, portanto, que seja católico, e católico praticante, não apenas de fachada. Se for membro ou simpatizante da Renovação Carismática, ainda melhor, pois assim falaremos as mesmas línguas: a dos homens e a dos anjos.
É fundamental que seja livre, disponível e aberto para viver um grande amor, que não viva à busca de aventuras fugazes, mas que tenha maturidade para aventurar-se nos intrigantes caminhos de um amor maduro, pautado na lealdade e na fidelidade. E, quando digo livre, é bom falar com toda a clareza: que não seja casado, namorado, amante, enrolado em qualquer tipo de relacionamento mal resolvido. E que queira e possa casar-se na Igreja. Que tenha equilíbrio para viver um namoro casto que pode não passar de namoro, mas que se disponha a ser bem mais que isso.
Que tenha bons amigos, abertos a aceitarem a minha companhia, e um coração com espaço bastante para acolher os meus amigos. Que seja disposto à soma, à multiplicação, à ampliação e não à divisão, a diminuição, à redução, ao apequenamento.
Pode ter um pouquinho de ciúmes, mas, só um pouquinho, para temperar a confiança mútua. Que traga feridas, mas já cicatrizadas ou em processo efetivo de cura, e que saiba respeitar as marcas que em mim foram deixadas pela vida, sem querer mudá-las.
Ah, é fundamental que seja alegre, bem humorado, que ame a vida e veja uma imensidão de possibilidades em cada amanhecer. Que tenha o dom de me fazer rir e que se divirta com as minhas piadas. Pode até roncar um pouquinho, mas que sempre tenha nos lábios um “Bom dia, querida!” e que jamais adormeça de cara feia, sem um “Boa noite, princesa!”. Que traga encanto, aconchego e carinho às minhas noites, que as prolongue até as madrugadas, e que se disponha a deixar-se ser completamente amado e saciado por minhas carícias. Que adormeça sereno, me aquecendo com o calor do seu corpo e que não ria por eu sempre dormir de meias. É, pode roncar um pouquinho.
Não precisa ser um padrão de beleza, mas que não seja desleixado, que se aprecie, que valorize seus pontos fortes e conviva bem com os pontos fracos; que se saiba único, que cuide de sua saúde, use perfumes gostosos, tenha sempre o desejo de estar bonito para deleitar meus olhos. Que não espere de mim esplendores de fruta verde, mas que se disponha a degustar com calma o meu sabor de fruta madura. E que jamais insinue que silicone cairia bem em alguma parte do meu corpo, sou absolutamente natural e em paz com o vigor de meus 50 anos. E que seja alto, pois tenho 1,75m e gosto de usar salto!
Que seja presente, pois já reencontrei amores de outrora e, conquanto isso seja encantador e nostálgico, ainda que minha alma deseje, meus pés não podem percorrer o terreno do passado; apenas a estrada do hoje me pertence e me conduz aos encantos de um futuro sonhado. Que se dê no tempo do hoje o nosso encontro – e que seja breve.
Ah, nem preciso falar que é condição “sine qua non” que goste de ler (rs), ainda que não escreva. Que aprenda a viajar nos meus textos, que me incentive nos meus voos literários e tenha sabedoria para respeitar a minha necessidade de solidão quando estou compondo.
Também não espero que seja rico, mas que tenha uma economia equilibrada. Que não seja sovina e nem perdulário. Que não dê ao dinheiro nem mais e nem mesmo importância do que ele deve ter para uma vida sem desnecessários percalços. Que saiba, com muita clareza, dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
Se tal encantador amante morasse em minha cidade, seria algo como tirar a sorte grande, comprar o bilhete premiado, mas, não importa de onde seja, é importante que se disponha a mudar-se para as montanhas de minha Atibaia, pois não tenho planos de deixar meu recanto, que venho construindo há anos para recebê-lo e abrigá-lo, um lugar de sonhos.
Ah, seria interessante que tivesse um carro com tração nas quatro rodas, porque chegar aqui é algo meio próximo do rali Paris/Dakar. É para pessoas que prezem mais o caminho do que o meio de transporte. É tipo assim Fusca, Jipe, Rural... Mas, isso é só um detalhe, eu tenho um excelente mecânico e já sou praticamente cliente vip da oficina de alinhamento, balanceamento, troca de suspensão e amortecedores. Portanto, aqueles moços simpáticos que têm verdadeiros casos de amor com seus carros luxuosos, infelizmente terão de ser descartados...
Que tenha cultura e conhecimentos diversificados, porém, mais que isso, que possua sabedoria. Que conheça uma porção de coisas e goste de conversar sobre elas, que goste de ensinar o que sabe e aprender coisas novas. Que não seja do tipo arrogante, que preze muito ter razão em tudo; que, assim como eu, conquanto um pouquinho teimosa de vez em quando, já tenha aprendido a escolher ser feliz em vez de ter sempre razão. Que não seja excessivamente problemático, mas, que tenha suficientes imperfeições para não ser um chato!
Precisa ser apaixonado por cachorros, pois vivo cercada deles e ainda me relaciono com alguns dispersos pela vizinhança. Que não ria de mim por eu não saber andar de bicicleta, mas, que esteja disposto a ensinar-me. Que nunca diga que eu dirijo mal, mesmo quando eu dirigir mal (não existe coisa mais irritante que homem que critica uma mulher ao volante!).
Adianto que cozinho bem, que tenho uma relação meio alquímica com o ato de cozinhar, mas apreciaria imensamente que meu futuro amor também o fizesse, que cozinhasse para mim, que cozinhássemos juntos, que nos auxiliássemos nessa arte e, sobre aquela parte de lavar a louça... bem, é claro que um homem especial como esse que caminha ao meu encontro amará lavar, secar e guardar a louça e, claro, limpar o fogão de vez em quando!
O que mais posso esperar desse amor sonhado? Que seja carinhoso, que goste muito de beijar na boca, fazer coisas bobas como andar na chuva, namorar na varanda em noites de lua cheia, ficar de bobeira na rede, jogando conversa fora, andar abraçado ou de mãos dadas, abrir a porta do carro, carregar as compras. Que tenha disponibilidade para cuidar e abertura para ser cuidado.
Que goste de levantar cedo e que se deleite com o pôr-do-sol, do tipo que para o carro na estrada para apreciar esse momento mágico. Que se extasie com o arco-íris. Que ria muito e me faça rir muito, e nunca me peça para não chorar e muito menos que não tenha coragem de chorar.
Que não seja muito dado à bebida, apenas um vinho de vez em quando, eventualmente uma cervejinha. Que tenha aversão ao cigarro e, preferivelmente, não seja fanático por futebol, do tipo que assiste 47 reprises do mesmo jogo num único domingo...
Que jamais grite comigo e nunca admita que eu grite consigo; que converse sempre olhando nos olhos. Que me permita descalçar-lhe os sapatos e massagear seus pés e que também se disponha a fazer isso com os meus. Que não se sinta ameaçado com a minha independência e nem me fira com a sua. Que tenha a força de admitir-se fraco e a coragem de se reconhecer aprendiz. Que ame a viagem mais do que o destino e o repouso mais do que a agitação inútil. Que seja romântico, mas sem ser pegajoso.  Que opte pelo silêncio em vez dos lugares comuns e frases feitas, como dizer a uma pessoa deprimida para ter força de vontade.
Que tenha noção de suas imperfeições e defeitos, mas que tenha a ousadia de superar-se. Que tenha amor à disciplina, que seja caridoso e tenha interesse real pelas pessoas. Seria bom que tivesse filhos, pois é sublime ser agraciado com essa bênção, mas, que, tendo-os ou não, ainda considere a possibilidade de ter outros, pelas vias naturais, contando com os avanços da medicina, ou pelas vias da misericórdia, diante de tantas crianças sem lar e abandonadas. Que queira de fato construir uma família.
Que queira envelhecer junto e voltar a ser criança de mãos dadas. Que aprecie o avanço tecnológico, mas não se escravize a isso e ainda se disponha a escrever longas cartas de amor ridículas e açucaradas e que sempre me dê flores, ainda que roubadas.
Enfim, que tenha amor bastante para preencher-me, mas que também tenha suficiente espaço vazio para receber a dádiva do amor que me vai na alma e que está para ele reservado, maturando-se e adquirindo novos sabores a cada dia, como vinho antigo. Não importa que tenha pés cansados desde que tenha suficiente fé para acreditar que encontrará em mim o conforto de um sapato laceado, o número exato para pés machucados.

Bem, se você for este homem que procuro e que espero também esteja à minha procura, não perca mais tempo, caminhe rumo à construção da nossa felicidade. Se você não for este homem, mas conhecer um que se pareça com ele, dê-lhe meu endereço, conte-lhe que estou à sua espera, sem desespero, sem angústia, com calma e serenidade, mas, que já não tenho 18 anos e o tempo não deixa de caminhar apenas para retardar nosso encontro. O tempo é agora. Venha! Estarei tomando um chá de erva-doce com pétalas de rosa, sentada na cadeira de balanço da varanda, enquanto você caminha na minha direção. Mas, não se demore por demais, não pretendo perder o viço do que resta da juventude com a qual desejo presenteá-lo.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018


Quando morre a paixão?

Isa Oliveira

No último fim de semana estive num hotel tido como referência na região em que moro. Situado no campo, entre Mogi Mirim e Mogi Guaçu, com lindos jardins ao redor, o hotel chama a atenção de quem passa na rodovia. Pesquisando na internet, podemos ver a beleza daquilo que não se vê de fora: piscinas, salas sofisticadas, quartos bem decorados, refeitório suntuoso.
Foram várias tentativas de fazer a reserva por telefone, mas, a linha sempre dava ocupada, então resolvemos ir pessoalmente ao local, torcendo para não estar lotado, pois queríamos fazer a reserva para a noite de sábado para um casal de amigos que se casaria naquele dia e acabáramos de saber que iriam passar a noite de núpcias em casa. Foi um presente de última hora, improvisado. Quando chegamos na portaria, encontramos o portão aberto, a guarita vazia e ar de abandono, o que se acentuou à medida em que fomos nos aproximando da entrada. Os jardins, antes bem cuidados, estavam desleixados, com mato crescido sufocando as flores. Na recepção, apenas uma funcionária que nos explicou que o hotel não possui mais telefone fixo, por isso não conseguimos ligar. Prestativa, levou-nos para conhecer a suíte, bonita, mas com ares de estar fechada há muito tempo. O corredor estava empoeirado, notava-se que não era varrido há dias. Uma manhã ensolarada e ninguém na piscina, no hall de entrada ou nas salas aconchegantes. No amplo estacionamento, apenas dois carros. Fizemos a reserva, mas, não conseguimos pagar com cartão, posto que não havia linha telefônica e tivemos que voltar depois para pagar em dinheiro.
Mais tarde, no casamento, era contagiante a paixão dos jovens noivos, seu entusiasmo, o primor com que prepararam todos os detalhes da festa. Uma paixão que contagiou muita gente, formando uma verdadeira corrente do bem entre os colegas de trabalho da noiva: o professor de gastronomia preparou as entradas e o jantar, com o auxílio de outra colega, cujo marido se dispôs a servir os convidados, uma atendente ajudou a arrumar as mesas e fazer a decoração do ambiente, o professor de moda desenhou e costurou o vestido, a professora de maquiagem arrumou a noiva, meu marido, também colega de trabalho, fez as fotos. Enfim, uma paixão que contagiou toda uma equipe e fez com que, mesmo com pouco dinheiro, os noivinhos conseguissem realizar o seu grande sonho.
Uma coisa, porém, chamou a minha atenção. Na mesa em que nos sentamos, havia quatro casais, incluindo eu e meu marido, todos em seu segundo casamento. Então pensei no hotel, antes tão glamoroso e agora, praticamente falido, certamente com os dias contados para fechar as portas de vez. Pensei em cada pessoa naquela mesa, que um dia sonhou com um “felizes para sempre” que não se concretizou. Pensei num casal com o qual convivo de perto que está junto há 50 anos. Em aparência, um casamento que deu certo, mas, são duas pessoas que não suportam ouvir a voz uma da outra, uma simples palavra irrita e, estar na companhia deles é estar fadado a ouvir um rosário de lamúrias e lamentações, algo insuportável.
Então, me perguntei, quando morre a paixão? Por que morre a paixão? Como morre a paixão? Quando nos apaixonamos, por algo ou por alguém, costumamos estar atentos aos menores detalhes, a todos os sinais e vamos caprichando e nos envolvendo cada vez mais. Tudo tem sentido, tudo é prazeroso, agradável, colorido. É assim no amor, no trabalho, na casa que decoramos com esmero, naquilo que nos move, como escrever, fotografar, construir, vender, pintar, dar aulas, atender pacientes, fazer cirurgias, cozinhar, dirigir, enfim, seja o que for que escolhemos para fazer na vida, é algo que nos enleva, nos motiva, nos dá razão de ser.
Há uma música do Beto Guedes que diz: “a primeira vez que eu me vi dentro do seu olhar.”. Isso é lindo, e é fantástico nos vermos dentro do olhar de alguém, mas, por que demoramos tanto a perceber que já não estamos dentro do olhar do outro e nem ele dentro do nosso, o dia a dia nos enfada, limpar a casa nos cansa, ir para o trabalho a cada segunda-feira nos destrói? A gente começa a ter de fazer, a ter de conviver, a ter de trabalhar, a suportar, depois a empurrar, a fazer força para respirar em meio ao que nos sufoca, nos oprime.
Eu, como muitos, já me apaixonei e desapaixonei por coisas e pessoas e sei o quanto é bom viver movido pela paixão e o quanto é ruim, trágico e pesado viver sem ela. A paixão move o mundo, as grandes invenções são frutos da ação de pessoas apaixonadas, pessoas que acreditam na vida e na transformação. Mas, um hotel, uma loja, uma empresa que fecham as suas portas, um casamento que acaba em divórcio ou numa pesada convivência de fachada entre pessoas que não se suportam, uma profissão que se transforma num peso, num enfado, são coisas muito tristes que podem nos levar à depressão, a fugas, a vícios, a traições, a tristezas sem explicação.
Acho que o grande segredo para evitar chegar a esses pontos cegos, a esses labirintos aparentemente sem saída é o timing, é estarmos atentos, percebermos os pequenos sinais, as pequenas decepções, as pequenas quedas de temperatura. Nada passa do quente ao gelado abruptamente, de uma hora para outra, há um longo período de mornidão entre esses dois extremos. E o morno é que é o grande perigo, pois nos leva a nos acomodarmos, a fazermos de conta que está tudo bem e que, a qualquer momento, vai esquentar de novo. Mas, isso raramente acontece e vamos, dia a dia, passo a passo, caminhando do morno para o frio, até não ter mais a menor motivação para sequer pensar em reaquecer o que esfriou.
Eu não sei qual é a solução para isso, apenas desejo estar atenta e sensível o bastante para perceber quando o caldo começar a amornar e quando começar a me tornar ausente do olhar em que um dia me vi. Creio que a responsabilidade pela manutenção da paixão em nossas vidas é algo que está em nossas mãos e requer muita atenção e delicadeza. Uma fogueira não se apaga se nos dispomos a puxar as brasas, soprar as cinzas e colocar mais lenha. Nosso grande mal talvez seja fazer de conta que não vemos o óbvio ou então esperar por um milagre que faça tudo ficar bem de novo. Aí o milagre não vem, colocamos a culpa no outro, no chefe, na empresa, no governo, na política, no Lula, no Temer, no Eduardo Cunha, e simplesmente perdemos o que deixamos esfriar, o que não alimentamos, o que não nos demos ao trabalho de cultivar. C’est la vie!