quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O Segredo da Lancheira de Marcos Cunha


A magia de um tempo que se foi

O Segredo da Lancheira é o primeiro livro de Marcos Cunha, escritor e membro da Academia Guaçuana de Letras. Tal obra, voltada ao público infantil, tem os desenhos da talentosa Juliana Bueno e será lançada nos próximos dias em Mogi Guaçu/SP. A AGL teve acesso ao livro antes do seu lançamento e preparou a presente resenha. 

O livro infantil narra a aventura de Didi, um típico menino do interior do Estado de São Paulo dos anos 70 em um dia de aula. Tudo começa com o personagem saindo de sua casa para ir à escola, portando sua preciosa lancheira vermelha de tampa branca que, além de guardar o lanche preparado com muito carinho por sua mãe, guarda um segredo. Tudo corre bem sob o olhar atento da professora, mas quando os alunos saem para o recreio, Jessé, o companheiro "bagunceiro" de Didi apronta uma das suas. Ele vai até a classe vazia e mexe na lancheira de Didi, descobrindo o segredo até então guardado a sete chaves. 

Marcos Cunha consegue estabelecer uma conexão com as crianças de hoje, mesmo ambientando sua história em tempo remoto, pois os problemas abordados ainda são os mesmos. O emocional das crianças, a vergonha, a humilhação, temas tão presentes (infelizmente) no ambiente escolar. Deixar a casa dos pais para ganhar o mundo da escola nem sempre é uma tarefa fácil e a obra aborda justamente esta passagem. É preciso crescer...Entretanto, é pertinente reconhecer o seu espaço, o seu tempo e sua própria história. Aos mais saudosos fica a boa representação de uma cidade que mudou muito, assim como seus habitantes. 

Um livro bonito, colorido, bem ilustrado e editado pela editora Compacta, cuja mensagem atual o torna leitura indispensável para pais e crianças em período escolar. Marcos Cunha é um autor acostumado com nossas crianças e deixa claro nesta obra sua afinidade com elas. Já o imaginamos contando a história de Didi com a magia que só um contador de histórias é capaz de "conjurar".   

Fica a resenha e a dica.   

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

FOSTES




Fostes...

Sim, fostes...

O sonhar impossível dentro das cores da noite,
Desejo alcantilado, a buscar o olor de teu corpo,
O fluir do tempo, lua no céu, a sina meu açoite...

O véu da escuridão o perfume de dama-da-noite,
As estrelas em cortejo a toldar os meus desejos;
A dor, a cruel saudade em meu corpo, o pernoite.

O castelo dos ventos fustigantes, o doloroso pranto;
Na penumbra orvalhada meu único e profundo amor,
O medieval delírio e a torre de meu secreto encanto!

CHUVA ATEMPORAL


CHUVA ATEMPORAL

Gotejam lá fora gotas numa lata
Os trovões ribombam distantes...
No condutor o rumor de uma cascata
Menino, eu dormia feliz num instante.

Imaginando meu telhado protetor
Meu colchão simples, mas confortante,
Hoje - menino já velho - cheio de dor...

Os segundos a tiquetaquear,
Penso lá fora, no chão sem cobertor,
Doentes, velhos e crianças a chorar...

Já são altas horas, retiro a lata da goteira
Para não ouvir o som que era de saudade,
Parecendo dar à miséria uma eira ou beira;
Somos todos cegos esta é a pura verdade...

Ribombar de trovões distantes ora tristes são,
O telhado já não me protege das gotas frias
Que caem lá fora em meu exposto coração...
Tempus fugit, e todos ficamos nesta apatia.

Não podemos sair a esmo pela noite afora,
A noite é o logro de um poema feito a sós
Não, a selva se alimenta de sangue agora,
Há angustia no Tempo que cala nossa voz...

E breves quanto eternos serão os segundos
Soma dos infindáveis minutos e horas feridas.
Para dormir só o acalanto de outros mundos

Nos agregará o fluir da paz para nossas vidas! 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

As Cortinas do Tempo: BUSCAR O SABER

As Cortinas do Tempo: BUSCAR O SABER: BUSCAR O SABER... O tempo corre tão depressa com os corpos que precisamos parar e  esperar nossa alma chegar. [De um conto indíge...

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Conheça a Cia. das Artes R.F. Fílon


A Acadêmica Fátima Fílon em parceria com outros fomentadores culturais criou o canal de Youtube Cia. das Artes R. F. Fílon, cujo objetivo é divulgar a Literatura regional através de teatro com fantoches. 

Confira a descrição do canal:
Cia das Artes R.F. Fílon apresenta uma saudação para 2018, com os bonecos de fantoche: Glorinha, Maria, Tuca e Divino (Vino); e outros. Com muita animação e cantoria em cordel, os quatro amigos combinam novas reuniões para um grande projeto em Arte Educação para melhorar o mundo nesse lindo planeta Terra e encantar a todos. Este é o primeiro de uma série que virá sempre abordando novos temas. Divirtam-se!  

O primeiro vídeo:


Segundo Fátima Fílon, haverá espaço para cordéis, poesias e historinhas para as crianças. 

Apoio Cultural:
-Vera Scholze
-Soberana Trajes Finos 
-Claudinei Honorato 
-Cristiano Domingos Pereira
-Rosângela Fonseca Ferreira
-Roberto Corrêa Fonseca- Pinturas em geral

Página do Facebook:

Inscreva-se:

fica o registro e a dica. 

sábado, 13 de janeiro de 2018


FÁBRICA DE NUVENS

Isa Oliveira

            Eu não tinha nenhuma ideia sobre Mogi Guaçu e nem mesmo a diferenciava de Mogi Mirim ou de Mogi das Cruzes. Talvez até mesmo confundisse a cidade com o rio. No entanto, quis o destino que meu coração de poeta fosse seduzido por um habitante desse lugar, que não é um peixe, logo, não se trata de um rio, mas de uma cidade, que passou a figurar na minha estreita geografia e adquirir contornos de tons prateados.
            Combinei com meu guaçuano amado uma viagem para a minha terra natal, Monte Alto. Como viria de Atibaia, pela Dom Pedro, para facilitar as coisas, nos encontraríamos em Campinas, na manhã de sexta-feira. No entanto, a doce agonia da saudade me levou a antecipar minha ida em um dia e a aventurar-me a encontrar a agora já interessante cidade com as parcas instruções obtidas no Google, sem GPS ou estrelas-guia para me orientar.
            Logo que fui me aproximando do sítio procurado, como é comum aos apaixonados, as mãos foram gelando e as pernas bambeando, difícil controlar os pés entre embreagem, freio e acelerador. Para distrair-me desse estado de perturbação, resolvi passear meus olhos pela paisagem e, qual não foi a minha surpresa, ao descobrir que é na região de Guaçu que são produzidas as nuvens! De uma imensa chaminé, provavelmente a maior que já vi, saía uma nuvem branquinha e muito fofa, recém produzida. A imagem extasiou-me. Cinco décadas acreditando que nuvens são formadas pela condensação do vapor que sobe da terra para, num repente, descobrir que existe uma fábrica delas! Tá, é certo que os ecologistas e muitos moradores do lugar podem não concordar com meu ponto de vista romântico sobre o denso material expelido pela grande chaminé, mas, serei irredutível nesse ponto: é uma fábrica de nuvens e fim!
            Entrando na cidade, que já me pareceu simpática desde a um pouquinho esburacada via de acesso da entrada que escolhi (nem imaginei que houvesse outras, entrei logo na primeira, como se fora a única que me levaria aos braços do amado). Rapidamente dei conta de que as orientações do Google Maps impressas numa folha A4 não me seriam de grande valia, pois placas com os nomes das ruas que deveria seguir, não as vi logo de cara. Parei então numa loja de material de construção, tentei controlar a tremedeira das pernas, entrei e perguntei pela localização da Rua Bauru. “Ih, moça, tá do ouuuuuuuuuuuuuuuutro lado”.
Pelo encompridar do “outro”, supus que a rua estivesse mais perto de Atibaia do que do ponto de Guaçu em que me encontrava. O rapaz do depósito foi extremamente gentil, saiu de detrás do balcão, foi comigo até o carro e me deu instruções precisas, cuja metade esqueci alguns quarteirões depois, mas, guardei uma referência: o Bar do Congada.
Consegui chegar até próximo da rodoviária e lá parei numa esquina para me informar. Um pedreiro desceu do andaime e veio em meu socorro, rosto suado e mãos sujas de massa. Pensou, pensou, traçou rotas a meia voz, falando consigo mesmo e dizendo: “Não, por aí é muito difícil, ela vai se perder, péra aí... Não, por ali também não...”. Atrás de mim havia um caminhãozinho parado e o motorista falava com outro homem. Sugeri ao pedreiro perguntar ao motorista e ele me explicou que não ia adiantar, porque ele também estava perdido.
Eu já estava apaixonada por Guaçu pelo simples fato de ela abrigar aquele que amo, mas, a atitude daquele homem simples nocauteou-me como um golpe de direita do punho do Anderson Silva em suas melhores lutas. Ele me pediu para esperar, entrou na obra e reapareceu com uma chave e um capacete na mão. Subiu numa moto e me pediu para segui-lo, tendo a delicadeza de ir devagar e parar para me esperar sempre que outro veículo de interpunha entre nós. Levou-me até o Bar do Congada, a poucos quarteirões do meu destino final. Desci do carro num impulso, agarrei a mão do pedreiro e a beijei demoradamente, sentindo em meus lábios o gosto acre de cimento e cal.
Com esse gesto tão humano, tão solidário, de uma pessoa que deixou seu trabalho para guiar uma desconhecida, Guaçu me conquistou para sempre. Logo mais eu seria recebida pela reação feliz do meu amado à surpresa, pelo carinho de seus pais, agora meus também; mais tarde por seus irmãos e tios e, com requintes de atenção e doçura, por seus colegas de trabalho no SENAC, mas, o impacto mesmo foi causado pelo atencioso construtor. Só não entendi como ele trabalha levantando paredes em vez de manobrando a chaminé e os fornos da magnífica fábrica de nuvens, posto que é um anjo.

Não me julgo cidadã do mundo, e sou até muito provinciana, mas, de agora em diante tenho três naturalidades: Monte Alto por nascimento, Atibaia por escolha e Mogi Guaçu por amor!