sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A ética nossa de cada dia

Isa Oliveira

Ontem, depois de passar seis horas sentada em uma cadeira pouco confortável, numa sala com ar condicionado abusadoramente frio num treinamento promovido por minha empresa, sem almoço devido ao horário de início e término do curso, com um breve intervalo de apenas 15 minutos para um coffe break, sentindo os efeitos do choque térmico ao retornar para o calor da rua, caminhei a pé – e de salto – mais dois quilômetros até o SENAC de Campinas para outro curso que faço todas as quartas-feiras, por escolha própria. No intervalo da aula, eu não sabia o que era maior, se a fome ou o cansaço, mas meu professor veio em socorro de minha indecisão ao comunicar que iria trancar a sala. Desci a escada e fui até a lanchonete da rua de trás para comer alguma coisa. Só há duas pequenas lanchonetes ao lado da escola e a fome parece ter atingido a totalidade dos alunos, pois a fila estava imensa. Apesar do cansaço, eu estava de ótimo humor e me mantive trocando ideias com uma colega na fila até que um pequeno ocorrido me chamou a atenção. Duas mocinhas um pouco atrás de mim começaram a reclamar do tamanho da fila, deixando-a logo em seguida. Mas, para a minha surpresa – porque, por incrível que pareça a uma pessoa da minha idade, ainda me surpreendo com esse tipo de coisa – uma delas se dirigiu a uma colega, bem na frente na fila e pediu-lhe, como se fosse a coisa mais natural do mundo, para comprar-lhe um lanche, um suco e uma salada. Em seguida as duas sentaram-se numa mesa.
Cansada, com fome, com sono, com os pés doendo e a garganta arranhando por efeito do ar condicionado, me senti a mais perfeita idiota. Não reagi, apenas olhei demoradamente para as meninas confortavelmente sentadas à mesa, conversando animadas enquanto a colega à frente na fila fazia o seu pedido e o delas, já tendo assegurado um lugar para sentar junto das desonestas. Eu e minha colega de sala fizemos o nosso pedido e comemos em pé, na calçada. Tá, se formos nos preocupar com essas coisinhas, se formos nos deixar levar por essas ninharias, não vivemos e... Não! Basta! Não tem de ser assim, temos de nos preocupar sim, de nos importar sim, porque essa mesma mocinha pode ser aquela que se juntará a outros da mesma idade para ir às ruas fazer protestos e manifestações contra a corrupção dos políticos e governantes, muitas vezes promovendo quebra-quebra e depredação do patrimônio público e privado. Mas, que diferença há entre estar envolvido com propinas de alguns milhões da Petrobrás para favorecer determinadas companhias em processos de licitação e furar uma fila para comprar um lanche enquanto guarda lugar numa mesa? Nenhuma. Não há diferença entre roubar um real e roubar um milhão, entre não devolver o troco recebido a mais no supermercado e aceitar vantagens pessoais e para familiares dentro da máquina administrativa.
Devemos protestar e exigir mudanças, mas, essa mudança deve começar em nós. No episódio aparentemente sem importância e que apenas me causou uma leve irritação, por estar excessivamente cansada, eu me calei e assisti passivamente a um exemplo de corrupção ativa bem na minha frente. Assim como, na maioria das vezes, estamos cansados demais, desanimados demais internamente para tomarmos alguma atitude e por isso vamos assistindo, passivos e indignados, à roubalheira e pouca vergonha que assola o nosso país. O problema é que agimos como se a questão da corrupção estivesse circunscrita apenas a Brasília, com alguns focos isolados de contaminação nas capitais dos estados, onde atuam governadores e deputados e, ocasionalmente, alguns foquinhos em algumas prefeituras e câmaras de vereadores em pontos isolados do país. Assim como associamos pratinhos de vasos de plantas e pneus com água ao Aedes Aegypti, associamos a corrupção aos políticos. Olhamos as consequências e não as causas, observamos apenas os frutos, sem enxergar a raiz.
Concordo que a proliferação do mosquito da dengue depende de ações do governo para a sua erradicação, mas, começa na negligência de cada um de nós em cuidar de nossas casas, nossos quintais. Assim também se dá com a corrupção. Essa mocinha que descaradamente passou à frente de mais de uma dezena de pessoas na fila da lanchonete, não deve achar que agiu mal, apenas foi mais esperta, soube como valer-se de suas amizades para levar uma pequena vantagem. Esse tipo de praga evolui e leva as pessoas a perderem a moral, a ética e a decência e não verem nenhum mal em receber alguns milhões para favorecer um amigo em uma licitação ou na obtenção de qualquer tipo de favor do governo e de suas autarquias. O princípio é o mesmo, o crime é o mesmo, a diferença é que quando se mexe grandes quantidades de dinheiro, a coisa incomoda mais.
Onde isso começa? Infelizmente, nas nossas casas, na nossa educação, nos nossos descuidos. O Aedes Egypti não é uma entidade espiritual malévola vinda do além para trazer-nos uma praga apocalíptica, é apenas um mosquitinho hospedeiro que não se reproduziria e não se espalharia tão rápida e avassaladoramente se cada um de nós tomasse pequenos cuidados básicos. Assim também a corrupção não proliferaria e nem se transformaria nesse monstro hediondo que parece que não há poder capaz de destruir se não a amamentássemos e cevássemos dentro de nossos lares, na educação de nossos filhos desde a mais tenra idade. É comum vermos pais e mães ensinando aos seus filhos os direitos que eles têm sobre os demais, ensinando-os a sempre levarem vantagens sobre os coleguinhas e a darem jeitinhos para resolver as coisas mais comezinhas. Claro, há exceções, graças a Deus. Há pais e mães que ensinam seus filhos a serem justos, que os repreendem quando eles erram, que lhes ensinam ética, valores morais e regras de convivência e que não os criam como se fossem coitadinhos, sempre certos, vítimas do mundo, injustiçados e perseguidos. Esse tipo de educação garante que, paralelamente aos corruptos e corruptores, ainda vivam pessoas de bem, homens honestos, de brio, pessoas éticas que veem o mal e lutam pelo seu extermínio, o que nos faz acreditar que este país e este mundo ainda tem conserto, que ainda há esperança, que o bem triunfará no final, sobretudo se nos unirmos para promovê-lo, porque, mais que lutar contra o mal, é imperioso promover o bem.

No entanto a maioria dos pais (sobretudo as mães) ainda agem tratando seus filhos como pequenos príncipes que gravitam acima dos deveres básicos, que devem ser servidos, respeitados, adulados e mimados, como se fossem seres de uma ordem superior. Com isso, se não criam corruptos e outras aberrações, porque nem todos têm as mesmas oportunidades, criam seres humanos fracos e acomodados que, ainda que vejam o mal se alastrando, ficam esperando que, como as suas mães os defendiam das professoras cruéis, dos coleguinhas maus, das maquiavélicas namoradas e esposas que os fizeram sofrer, dos patrões que os exploraram, vai aparecer uma força do bem, um elemento superior que os salvará desse poder malévolo que perturba a humanidade, e enquanto isso, vão reproduzindo esse mesmo modelo de educação doente, encapsulando seus filhos dentro de uma falsa proteção, acreditando-os injustiçados ou vítimas de bullying quando um colega olha torto para eles, criando mocinhas bonitas e fúteis que vão furar a fila da lanchonete e rapagões folgados que não conseguem sair da cama antes do meio dia para procurar um emprego, mas que se prestam a marchar heroicamente durante um manifesto, cobrir a cara com uma camiseta e sair dando voadora em vidros de prédios públicos e, se eles porventura são pegos pela polícia, esses mesmos pais vêm em sua defesa, dizendo que os seus pequenos heróis estão lutando pela pátria e os levam pra casa como vencedores. A ética no entanto...

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